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Beijo em Apenso

Na ponta daquela língua, Há dito preso nas grades Do pensamento, por dentro Do cérebro matutino, Que desperta madrugadas De pássaros ressentidos, À janela de uma casa… Engasgado na goela, Pinga uma gota amarela De pus ou gangrena, tísica Que mastiga a metafísica Das horas de rouxinol, Quando sopeava no sol E, de roxo, se despela… Entortado na moela, Demasiado me engasta Esta sorte tão madrasta!… O sorriso, que tigela Não quis brindar à panela, Floriu em teus lábios densos: Um beijo parvo em apenso… Autor: Edigles Guedes.

Sorriso e Motor

Demais desejo O teu sorriso de mobília Inteira, sem faltar um pedaço Sequer do fruto consentido De poucos beijos. A solta e voa cabeleira, por janela Do carro a cento e tantos quilômetros por hora, Até que pneu derrapa, e a gente bota o pé no mundo. Mas morre não. Que susto da vida! Motor suspira. Autor: Edigles Guedes.

Pássaro

Cuido que não sucedeu manhã, Se bem que um pássaro chilreou. Janela sonsa que despertou O Sol de sua órbita celeste. A meu ver, não sucede manhã, Porquanto meus olhos se baldaram De tuas lágrimas, que escorriam Da tua fronte afora, caindo No meu regaço, abrigo de bruta Falácia; tu, porém, não te deixas… O engodo em boca desvanecer. O Sol, fulgente e bravo, por sorte Enxerga o teu rosto tão regado Das águas — mordem as duras mágoas! O astro, veraz na constelação, Estreita as mãos para te abraçar. Chamejo os ciúmes, e cuspo a fúria, Desato o fogo, trovão de amor. Digo-te o quê? Pássaro chilreante? O simples: não o vi, tão somente Escuto um lindo cicio de canto, Deitado à casa com sua janela. Autor: Edigles Guedes.