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Semelhante

De vez em quando, alguém me lembra dos meus semelhantes… Eu me pergunto, cá, com os meus botões: — Quem seria Semelhante a mim, se tão díspar eu sou de mim mesmo? Quantos viram o gato mirabolante de Alice, Zombando, à distância bruta, com seu riso galhofo, Isto ao vivo e a cores, sem aparelho tevê? Quantos ouviram o sussurrar de pedras viandantes, Aos seus pés; entretanto, ao virar-se para sondá-las, Não encontra nada — simplesmente nada por caldo Ou vírgula — , além do simples chão prosaico, de costas Dadas, ao pisar hesitante de meus próprios pés? Semelhantes a quem? Se até os ouvidos, nutridos De surdez, querem me fazer de palhaço de circo? Semelhantes a quem? Se até sentido da visão, Desprovido de seu senso crítico, me faz bobo Da corte de algum rei, que de tão bom, torna-se déspota? Quem seria semelhante a mim, Se tão contrário aos seres eu sou? Autor: Edigles Guedes.

Rabiscos no Livro

Hoje, fui bater pernas, Como quem não quer nada; As pernas automáticas Me levaram ao sebo, Onde se vende uns livros Puídos, ora mofados, Ora sujos de poeira Antiquíssima, pois, Perdida por aurora Em tempos tão distantes. Me encantei pela capa, Fútil livro qualquer, Tudo indica que velho, Rabugento, matreiro, Solto às traças das horas, Dado às baratas sérias, Que passeavam sórdidas Nas prateleiras bambas De pés, sem a firmeza De costume ou destreza. Minha mão claudicante Pousou naquelas páginas Tão empalidecidas… Ao meu toque de bruto Ogro, desabrochou A flor deslumbradora Das letras cativantes. Rendi-me, então, pasmado: Duro piscar de pálpebras, Comprei o livro. Súbito, Arrochei minhas vistas Numa pequena mácula; Aliás, não era mácula, Mas, sim, miúdos rabiscos Na introdução do livro. Meu coração padece, De furta-dor, me sinto Como quem levou pito. O vendedor passou-me A perna, vendeu gato Por lebre. Nada obstante, Ao reparar no traço, Q...

Cachoeira

O que é que eterna cachoeira Sabe? Sabe do escorrer Por entre rochas, às vezes, As rochas secas e agrestes; Sabe o pular literal Dessas rochas méis, às vezes, Umas rochas rudas e íngremes. Foi à toa que cachoeira Virou anos e anos a fio De faca sorte, no curral Das ideias da Natureza? Só pra soletrar o escorrer Miúdo de criança em escorrego? Depois, soletrar entre rochas O conhecer do pular Por entre rochas, as outras? Não. Pensar em desperdício Jamais, a Natureza é Frugal, como ínvido pulo De gato, por um instinto Que lhe é tão circumpolar. Autor: Edigles Guedes.